Talvez em nenhuma outra cidade holandesa a presença da água seja tão forte quanto na cidade velha de Delft. Em muitas ruas, o nível da água está não muito mais do que quarenta centímetros abaixo do leito carroçável. Para aqueles habituados com enchentes devastadoras a pergunta é inevitável: mas como não inunda?
A cidade, que muitas vezes lembra uma pequena Amsterdam, carrega uma história de mais de 1200 anos de domínio e disputa do homem sobre a natureza. Ao contrário de grande parte da Holanda, Delft não está propriamente abaixo do nível do mar, mas bastante próxima da altitude zero. A bela paisagem urbana e do entorno é totalmente artificial e o nível da água é hoje inteiramente controlado pelo Homem.
A recriação dessa história, porém, requer alguma imaginação. Quase todos os documentos históricos foram destruídos em duas tragédias incomensuráveis, que marcaram a cidade já na era moderna. Praticamente não restaram mapas, não restaram relatos. Como a cidade é o que é?
As condições adversas e as constantes mudanças climáticas dificultavam os estabelecimentos humanos no começo da Idade Média em toda a região entre as fozes dos rios Musa e Reno, onde fica a cidade de Delft. A partir do ano 900, no entanto, a atividade humana aumentou, iniciando um ainda precário processo de drenagem do solo encharcado. Pequenas valas de drenagem foram traçadas e as águas eram conduzidas para um leito d’água natural. Para vencer o percurso entre as valas e o leito natural, um canal artificial foi escavado. O canal ganhou um nome literal, quase ingênuo: Delf, do verbo delven, que significa cavar, construir canais.
Antes de ser uma cidade, Delft já tinha um nome. A região ainda era uma ocupação agrícola, que pouco depois ganhou uma pequena igreja junto do canal. Estabeleceu-se um vetor importante de navegação para a região. As barcaças podiam passar pelo leito do Delf, carregando seus produtos. A história da cidade, nesse sentido, não é muito diferente de qualquer outra: o canal precisava de um porto, locado perto da igreja, e assim as casas começaram a se adensar junto das águas. Um segundo canal precisou ser aberto, o New Delft, possivelmente por razões militares ou mesmo de drenagem. Assim, um primeiro sistema de arruamento e canais já configurava um tecido urbano embrionário. Os canais se tornaram, portanto, canais urbanos (grachten).
A cidade se desenvolveu rapidamente entre os séculos XI e XVI, impulsionada pela produção de cerveja, tecidos e porcelanas. Talvez já no século XIII o arruamento da cidade era bastante similar ao que hoje existe na cidade velha e a urbanização ganhou um canal de defesa periférico (singel) que circunscrevia todo o perímetro e delimitava um hidroanel exterior. As principais ruas da cidade corriam sempre junto de pequenos canais, paralelos ao casario, e cruzados por pontes a cada poucos metros. Esses canais tinham diversas funções: primeiramente como drenagem e rota de navegação, e também fonte de abastecimento de água para a cidade. Os produtos chegavam normalmente por barcos, de outras regiões ou mesmo de dentro da própria cidade. Sistemas de coletas urbanos, como entulhos, já eram feitos por meio de barcaças pela municipalidade. Bombas manuais posicionadas nas margens permitiam o uso da água pelos moradores.
Antes do século XII, alguns diques já existiam na região, se somando às valas de drenagem e aos canais. Esse diques eram construções muito simples, feitas com os materiais naturais e que não tinham grandes preocupações sistêmicas. Apenas impediam que as águas de regiões vizinhas entrassem em outra unidade territorial. Pode-se imaginar que não era totalmente seguro morar em Delft nessa época, e a vida estava condicionada aos fenômenos naturais de cheias dos rios e tempestades marinhas, que aconteciam ciclicamente. Os diques então evoluíram para sistemas mais poderosos, entre eles uma grande barreira ao longo da região do estuário do Rio Mosa que protegia algumas cidades, entre elas Delft. Esses diques dificultavam a entrada da água. Outros pequenos diques circunscreviam áreas menores e, com canais equipados com barragens, controlavam os níveis da água em pequenas unidades territoriais, formando um segundo sistema de defesa.
Como se a configuração natural não fosse suficientemente desafiadora, o Homem criou outro problema com a extração da vegetação local – peat (turfa) – para queima e produção de energia como combustível. A retirada desse material, que era na verdade o próprio solo, fazia com que o nível da terra descesse. Além disso, a drenagem da terra provocava oxidação da turfa, que se desintegrava completamente. Enquanto o nível do solo afundava ao longo dos séculos, o nível dos oceanos subia lentamente. Uma bomba relógio estava armada e ameaçava a região, não apenas em relação às inundações, mas, sobretudo, em relação à qualidade da água dos canais e – por incrível que pareça, apesar da abundância hídrica – em relação ao seu abastecimento. Por causa da queda do nível do solo do entorno, Delft estava numa cota mais alta do que toda a região vizinha que abastecia os canais.
Apesar de uma rígida lei sanitária, que obrigava a coleta de esgoto e uma destinação em um lugar distante dos canais, a qualidade da água em Delft começou a atingir níveis catastróficos no século XV. A água ficava praticamente estanque dentro dos canais da cidade, já que as áreas externas estavam cada vez mais baixas. A extração da turfa foi proibida, mas a extração irregular, assim como a oxidação da terra, persistiam. A produção de cerveja, que possivelmente usava a água dos canais, não conseguia obter um produto satisfatório e entrou em decadência.
Uma inovação tecnológica, no entanto, salvou Delft e boa parte da Holanda do que podia ser uma espécie de desastre ecológico. Os moinhos permitiam usar a energia eólica para movimentar as águas, empurrando-as inclusive para um nível mais alto. Diversos moinhos foram instalados em Delft e região, principalmente, entre os séculos XVI e XVII. Além disso, as regiões rurais passaram a se estruturar por um sistema muito mais sofisticado de construção territorial, os pôlderes, que eram áreas cercadas por diques e que podiam ter toda a turfa extraída. Depois, a água de dentro dos pôlderes era bombeada pelos moinhos para fora dos diques.
A cidade de Delft, mesmo com o aprimoramento dos sistemas hidráulicos, vivenciou um desastre gigantesco em 1536. Um incêndio destruiu grande parte da cidade, que depois alterou suas regras construtivas e desenvolveu dispositivos para uso da água dos canais no combate das chamas. A cidade foi totalmente reconstruída até que em 1654, no dia 16 de Outubro, uma explosão, de proporções inéditas no mundo até então, destruiu novamente áreas inteiras da cidade. Trinta toneladas de pólvora, armazenadas em um depósito literalmente arrasaram quarteirões. O desastre não foi maior porque muitos moradores estavam em cidades vizinhas no momento do acidente.
A pequena cidade canal entre Haia e Rotterdam, no entanto, sobreviveu. O sofisticado sistema de controle hidráulico continuou sendo aprimorando até os dias de hoje. Bombas hidráulicas modernas, assim como avançados sistemas meteorológicos ou grandes projetos de diques e comportas mantém o nível da água sob controle. Mesmo assim, estipula-se que uma grande inundação possa vencer essas defesas, mas muito provavelmente os atuais sistemas não são suficientes apenas para resistir a um evento que ocorreria estatisticamente a cada 1250 anos á 10000 anos. As novas diretrizes de controle, porém, sobretudo por causa de recentes mudanças climáticas globais e uma corrida infinita por diques sempre mais altos, não discutem mais a idéia de conter cheias, mas sim conviver com ela.
Além do sistema de gerenciamento de águas, a cidade de Delft é um paradigmático exemplo de integração entre a cidade e as águas. O desenho urbano histórico propicia um contato extremo entre a rua e o canal. Em Delft, ao longo de toda a sua história, a água é o elemento mais forte. Dela o Homem conseguiu extrair suas potencialidades, de todos seus usos, do transporte ao abastecimento, da irrigação à drenagem, numa eterna luta pelo domínio da paisagem.
GABRIEL KOGAN,
Perguntei `a Inge Bobbing, professora de Landschape Architecture da TU Delft, se Delft localiza-se em um polder. Ela disse que sim, mas que e’ complicado de explicar. Vou tentar extrair mais informacoes e depois te conto.